Escrevi esse pequeno texto enquanto estava no avião lendo um livro do Edouard Louis
É comum quando eu saio com pessoas que não tem alguma proximidade com a psicanálise me perguntarem quais são os problemas das pessoas nos dias de hoje, como essas pessoas são, o que eu tenho atendido. Por muito tempo eu dei uma resposta mais superficial, vaga, com medo e cautela de falar alguma coisa sobre algum paciente.
Hoje em dia, eu ainda não sei se a resposta que eu dou é algo que me contempla. Tenho respondido mais ou menos assim: “pessoas como nós, que tem problemas parecidos com os nossos” — e geralmente recebo um olhar de dúvida, estranhamento, meio assim hã!? — e o amigo/familiar pergunta, tá, mas o quê?
E isso me captura de um jeito que eu acho muito curioso. Presumo que seja um olhar de “mas eu tenho problemas? Então me diz, qual é o meu problema? Do que eles falam que eu também tenho igual ou em comum?
Eu comecei a mudar a minha resposta porque me incomoda um pouco esse olhar e lugar que se atribui à pessoa que faz anos de análise como pessoa problemática, e à que está fora da análise como a pessoa resolvida. Quem faz e quem não faz análise não é uma pessoa melhor, mais resolvida, mais evoluída e sem problemas do que o outro.
A questão é que uma analisante tem curiosidade pelos seus próprios “problemas”.